sexta-feira, 21 de abril de 2017

     não sei se me apetece o recolher obrigatório, o descer das minhas saias abaixo do joelho e o lenço preto a tapar-me os cabelos de igual cor, tão longos que, esticados, me tocam no fundo das costas onde começam os indícios de maior beleza, segundo cedo descobri pelo António, o meu primeiro e único amor até ontem quando abri os olhos acordada e percebi que o amor não precisa de ser impingido, muito menos fingido. 
A do éMe. 

lisboa. março ou abril de dois mil e dezasseis.

domingo, 26 de março de 2017

metamorfose necessária


sete palavras. sete anos. sete longos anos. sete pequenos acontecimentos. sete nadas. mais sete quase  tudo. um ciclo que me fazem crer necessário à renovação da pele. ao crescimento e ao momento, àquele momento em que no centro do ponto mais central e exposto da cidade se dá o renascimento recalcado na pureza e espontaneidade dos gestos e da dor da metamorfose necessária.




Seven Words 
These seven words I say to you, one by one
I love you and you have to know
If I could change how I'm insane
If I could learn to leave my troubles behind
It's starting to hurt and I know you moved on
Telling everyone how I done you so wrong
Cat scratch a beast
My words that made you bleed
Now I face tomorrow
Now I face tomorrow
In time we'll both be free from this ball and chain
Hanging on to things
I want you mostly in the morning
When my soul is weak from dreaming
When the dust has cleared
And you forget that I'm here
Hanging on
I've been hanging
Who had the last word
I'm telling you first
Who had the last word
I'm telling you first
These seven words are no longer mine
Who am I but a stranger who took you down
It's starting to burn and I wanna go home
Only home I've known
Lost in the storm
It had to be seven words to set us free
Now I face tomorrow
Now I face tomorrow
Now I face tomorrow

quinta-feira, 16 de março de 2017



     abracei-te Veneza, tão cedo, tão nova e tão cheia de planos.

     sonhei abraçar-te muitas vezes, tantas que à sorte de querer apontar cada uma delas me perderia decerto nessa contagem como me perdi, orgulhosamente embriagada de tanta beleza, nas ruas e nos canais que ávida de paixão penetrei.

     abracei-te solteira, Veneza, abracei-te casada, abraçar-te-ei em qualquer estado civil que me conheça. abraçar-te-ei, sei mesmo, já morta, morta de vida pelas saudades definhadoras do meu corpo rasgado à falta do ar que o grito que me sai em cada sonho, sabe que te chamo noite dentro, questionando-me lavada em águas turvas pela escuridão negra da noite na aflição de pensamento se não te terei perdido para sempre quando te abandonei, deixando para trás daquele riva boat, todo o amor que encontrei no teu corpo em forma de ilha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

da cave

fazem-me muita falta os jantares que agora não dou

os amigos que não posso por ora receber

as porcelanas que ainda não escolho

as flores e os arranjos que para esses momentos invento

a música que partilho


para que possamos beber o vinho que todos trazem 
trocar conversas adiadas até ao momento em que
os recebo à porta de casa ou no centro da minha cozinha
em abraços de braços genuinamente abertos 


jardim de casa. setembro de 2015

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

para apaixonados


I'm running away with you
That's all I ever do
That's all we ever mean
I forgive you
Everything
Meet me at the railroad bar
About 7 o'clock
We joke while the sun goes down
Watch the lovers
Leaving town
This is for lovers
Running away
This is for lovers
Running away
Just for today
I'm running away with you
From yesterday's news
Let's leave it all behind
Help me back to my mind
I've paid the penalty
Your the jailer rattling the key
But the key is mine
I keep a spare one every time
This is for lovers
Running away
This is for lovers
Running away
Just for today



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

recordações da casa amarela

     não tentarei perceber porque me mantive tanto tempo sentada, imóvel, olhos postos no horizonte de um  mar imenso, a ver-te galgar as ondas com a destreza que me soava tão  fácil, igual  às subidas às mais altas escarpas das praias a sul para vermos e ouvirmos as gaivotas de perto. esperei-te assim virada de frente para aquele ondulado azul de espuma, a inspirar o cheiro a maresia que as tuas manobras "cutback" soltavam com inebriante intensidade. 



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

An Al­most Made Up Po­em

C.B., 

Apaixonei-me por ti há seis anos, n'Os Correios, uma garrafa de wisky  por capítulo, uma genialidade escrita a que não estava habituada e chegando o verão deste ano zango-me contigo assumidamente não nas corridas de cavalos, que já me enfastiavam mas nas histórias que desfiaste sobre as mulheres que entornavas tão depressa como esse whisky que sempre as acompanhava. 

e hoje, cai-me no colo este poema reconciliatório a confirmar o que há seis anos o desconhecido de calças pretas me disse ao ver-me retirar da prateleira Os Correios:  "se puder, leia-o só em inglês".

Your, 
A.L.






"An almost made up poem", by Charles Bukowski 


I see you drink­ing at a foun­tain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the foun­tain is in France
where you wrote me that last let­ter and
I an­swered and nev­er heard from you again.
you used to write in­sane po­ems about
AN­GELS AND GOD, all in up­per case, and you
knew fa­mous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’ all right,
go ahead, en­ter their lives, I’ not jeal­ous
be­cause we’ nev­er met. we got close once in
New Or­leans, one half block, but nev­er met, nev­er
touched. so you went with the fa­mous and wrote
about the fa­mous, and, of course, what you found out
is that the fa­mous are wor­ried about
their fame –– not the beau­ti­ful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awak­ens
in the morn­ing to write up­per case po­ems about
AN­GELS AND GOD. we know God is dead, they’ told
us, but lis­ten­ing to you I wasn’ sure. maybe
it was the up­per case. you were one of the
best fe­male po­ets and I told the pub­lish­ers,
ed­i­tors, “ her, print her, she’ mad but she’
mag­ic. there’ no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a wom­an he nev­er touch­es, on­ly
writes to, keeps lit­tle pho­to­graphs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cig­a­rette and lis­tened to you piss in the bath­room,
but that didn’ hap­pen. your let­ters got sad­der.
your lovers be­trayed you. kid, I wrote back, all
lovers be­tray. it didn’ help. you said
you had a cry­ing bench and it was by a bridge and
the bridge was over a riv­er and you sat on the cry­ing
bench ev­ery night and wept for the lovers who had
hurt and for­got­ten you. I wrote back but nev­er
heard again. a friend wrote me of your sui­cide
3 or 4 months af­ter it hap­pened. if I had met you
I would prob­a­bly have been un­fair to you or you
to me. it was best like this.
Charles Bukows­ki