quinta-feira, 16 de março de 2017



     abracei-te Veneza, tão cedo, tão nova e tão cheia de planos.

     sonhei abraçar-te muitas vezes, tantas que à sorte de querer apontar cada uma delas me perderia decerto nessa contagem como me perdi, orgulhosamente embriagada de tanta beleza, nas ruas e nos canais que ávida de paixão penetrei.

     abracei-te solteira, Veneza, abracei-te casada, abraçar-te-ei em qualquer estado civil que me conheça. abraçar-te-ei, sei mesmo, já morta, morta de vida pelas saudades definhadoras do meu corpo rasgado à falta do ar que o grito que me sai em cada sonho, sabe que te chamo noite dentro, questionando-me lavada em águas turvas pela escuridão negra da noite na aflição de pensamento se não te terei perdido para sempre quando te abandonei, deixando para trás daquele riva boat, todo o amor que encontrei no teu corpo em forma de ilha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

da cave

fazem-me muita falta os jantares que agora não dou

os amigos que não posso por ora receber

as porcelanas que ainda não escolho

as flores e os arranjos que para esses momentos invento

a música que partilho


para que possamos beber o vinho que todos trazem 
trocar conversas adiadas até ao momento em que
os recebo à porta de casa ou no centro da minha cozinha
em abraços de braços genuinamente abertos 


jardim de casa. setembro de 2015

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

para apaixonados


I'm running away with you
That's all I ever do
That's all we ever mean
I forgive you
Everything
Meet me at the railroad bar
About 7 o'clock
We joke while the sun goes down
Watch the lovers
Leaving town
This is for lovers
Running away
This is for lovers
Running away
Just for today
I'm running away with you
From yesterday's news
Let's leave it all behind
Help me back to my mind
I've paid the penalty
Your the jailer rattling the key
But the key is mine
I keep a spare one every time
This is for lovers
Running away
This is for lovers
Running away
Just for today



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

recordações da casa amarela

     não tentarei perceber porque me mantive tanto tempo sentada, imóvel, olhos postos no horizonte de um  mar imenso, a ver-te galgar as ondas com a destreza que me soava tão  fácil, igual  às subidas às mais altas escarpas das praias a sul para vermos e ouvirmos as gaivotas de perto. esperei-te assim virada de frente para aquele ondulado azul de espuma, a inspirar o cheiro a maresia que as tuas manobras "cutback" soltavam com inebriante intensidade. 



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

An Al­most Made Up Po­em

C.B., 

Apaixonei-me por ti há seis anos, n'Os Correios, uma garrafa de wisky  por capítulo, uma genialidade escrita a que não estava habituada e chegando o verão deste ano zango-me contigo assumidamente não nas corridas de cavalos, que já me enfastiavam mas nas histórias que desfiaste sobre as mulheres que entornavas tão depressa como esse whisky que sempre as acompanhava. 

e hoje, cai-me no colo este poema reconciliatório a confirmar o que há seis anos o desconhecido de calças pretas me disse ao ver-me retirar da prateleira Os Correios:  "se puder, leia-o só em inglês".

Your, 
A.L.






"An almost made up poem", by Charles Bukowski 


I see you drink­ing at a foun­tain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the foun­tain is in France
where you wrote me that last let­ter and
I an­swered and nev­er heard from you again.
you used to write in­sane po­ems about
AN­GELS AND GOD, all in up­per case, and you
knew fa­mous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’ all right,
go ahead, en­ter their lives, I’ not jeal­ous
be­cause we’ nev­er met. we got close once in
New Or­leans, one half block, but nev­er met, nev­er
touched. so you went with the fa­mous and wrote
about the fa­mous, and, of course, what you found out
is that the fa­mous are wor­ried about
their fame –– not the beau­ti­ful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awak­ens
in the morn­ing to write up­per case po­ems about
AN­GELS AND GOD. we know God is dead, they’ told
us, but lis­ten­ing to you I wasn’ sure. maybe
it was the up­per case. you were one of the
best fe­male po­ets and I told the pub­lish­ers,
ed­i­tors, “ her, print her, she’ mad but she’
mag­ic. there’ no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a wom­an he nev­er touch­es, on­ly
writes to, keeps lit­tle pho­to­graphs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cig­a­rette and lis­tened to you piss in the bath­room,
but that didn’ hap­pen. your let­ters got sad­der.
your lovers be­trayed you. kid, I wrote back, all
lovers be­tray. it didn’ help. you said
you had a cry­ing bench and it was by a bridge and
the bridge was over a riv­er and you sat on the cry­ing
bench ev­ery night and wept for the lovers who had
hurt and for­got­ten you. I wrote back but nev­er
heard again. a friend wrote me of your sui­cide
3 or 4 months af­ter it hap­pened. if I had met you
I would prob­a­bly have been un­fair to you or you
to me. it was best like this.
Charles Bukows­ki

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

*animais noturnos

     concedi-me a concretização daquele desejo. uma assombração que me  perseguiu demasiado tempo a par do crescimento dos hotéis que me faziam acreditar que a cidade transbordara os seus limites. o compasso do tempo foi sempre o mesmo mas a rapidez dos acontecimentos novos pareciam encurtá-lo. faço um esforço para não repetir que tudo passa rapidamente demais para uma única vida. 
      mas concedi-me, finalmente e sem planos pormenorizados, a concretização desse desejo. e escolhi o hotel, no mais alto lugar junto ao céu e uma vista de rio que seria um desperdiçar de alma se deliberadamente a ignorasse. 

     tudo o resto foi silêncio. ninguém soube que a noite que me concedi entre cigarros e escrita imparável se fez naquelas quatro paredes frente ao azul escuro infinito do céu e ao espelho de água de uma lua que quase totalmente redonda fez questão de iluminar. 
    
     não sei como enganei o tempo e porque razão ninguém me fez mais perguntas do que as naturalmente  habituais: onde vais, com quem ficas, a que horas chegas, queres ficar em minha casa. por isso e mais ainda fui. coração livre, alma branca e vazio de consciência. na minha maior liberdade, concretizei o único desejo que alguma vez me concedi como presente de natal.

"luz de inverno", Ingmar Bergman. 1962.





*retirado do filme com o mesmo nome.



 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

no calor destes nórdicos







                                             "Winning A Battle, Losing The War"


Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain,
I'll be on my knees to feed her,
spend a day to make her smile again
Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain
As the world is soft around her,
leaving me with nothing to disdain.

Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe and sound.
Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe from harm.

The sun sets on the war,
the day breaks and everything is new...

"""""



foi a alvura da rotina de três dias a sul
do golfo finlandês que me trouxe as notas e as letras de Erlend Oye
o frio a bater-me na pele lembrando-me que passaram entretanto sete invernos
onde se perderam muitas promessas veladas à custa de outros tantos silêncios.


por isso nem sei que dia foi ontem, antes de ontem ou mesmo hoje. sei que amanhã estarei novamente acordada.