terça-feira, 8 de julho de 2014

     eu sei que ele nunca me vai ler. a não ser que me leiam para ele. e será outra coisa dado que só o sorver das minhas palavras pela sua leitura conseguiria permitir que soubesse que seria sempre isto que eu diria, por me ouvir através dos seus olhos inclinados sobre o meu texto.
   francamente nem sei se alguma vez imaginou que o pudesse fazer, uma vez que quando nos conhecemos nem tudo foi denunciado, eu perdida nas gargalhadas que dava pela forma tosca e rústica dele se apresentar ao mundo, ele fascinado com a espontaneidade e loucura que, dizia-me muitas vezes, descobrira naquela que ele julgava afinal outra. 
    e fomos amigos alguns meses até que o tempo afastou a presença física e os telefonemas se foram esfumaçando. não sei quando deixámos de saber um do outro mas tenho presente o dia em que soube por uma amiga da irreversível cegueira que lhe consumiu a vontade de viver e o votou para um quarto de onde sai a muito custo. 
     por vezes esta forma escura de ele estar no mundo assola-me como uma culpa que sei não ser minha e chegam-me à memória outras culpas. outras histórias. outras vidas. 



segunda-feira, 23 de junho de 2014

     segui três mil e muitos kilómetros para sudeste. aterrei numa terra seca, dourada e tensa, crispada pelas vivências extremistas das gentes apoiadas na sua defesa. mas em posições contrárias. fomos para lá os dois, cada qual hasteando a sua bandeira que se enche de argumentos nas conversas de confronto. nenhuma arriou e a minha convicção chegou maior do que foi. 



entretanto, conto como foi.
e como não podia ter sido melhor. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

eu sou o amor

o amor nao é banal. nem pode ser para continuar a ser o que é. que é o amor.

guardo alguns amores em mim sem vertigem em tamanho nem comparação. para lhes voltar se me cumpro distraída em banalidades. para viver e para, por eles, suportar sobreviver.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

um jantar 
com música
em casa
com amigos
.
temos presente a magia que deixou
como o rasto do cometa
que aparece de quando em vez
uma vez em cada vida
sendo notícia por isso. 












quarta-feira, 21 de maio de 2014

surpresas que nos elevam

      adoro surpresas. boas, pois está claro. invisto nelas uma grande parte da minha energia a interiorizá-las para que passem ao meu ADN e não se percam. as surpresas boas que me aconteceram ao longo da vida nunca me defraudaram e se isso, por acaso, acontecer, facilmente transportam-se por intuição para outro patamar, mais baixo, escondido, esfumado e deixam nessa viagem descendente de me pertencer. sou a favor de guardar tudo o que é bom e tentar esquecer o menos bom. tenho conseguido isto com a maior das facilidades e por isso considero-me uma pessoa verdadeiramente feliz.



     uma felicidade que me tem chegado naturalmente desde que nasci até àquela que eu mesma me encarrego de construir. sim, a minha felicidade também se constrói. sinto que tenho sido, nesta parte, um bom executante.



     as pessoas.
     não vou citar nem uma mas são várias as que me apareceram de surpresa ao longo da vida a preencher um canto que estava aqui à espera das suas medidas exatas. e ficam. e eu cresço por causa delas.



     as leituras.
     autores para mim desconhecidos indicados pela circunstância aleatória de qualquer momento vivido abrem-me um novo mundo de palavras, vivendo entre a madeira quase maciça da mesinha de cabeceira e as prateleiras da sala de minha casa. repousados noutros lugares, quando me movimento.



     os lugares.
     longe ou perto do meu centro. às vezes, cantos desconhecidos na minha cidade.



     os amigos.
     os amigos que temos renovam-se por vezes em boas surpresas. esperamos dos amigos o que se espera sempre dos amigos. a amizade é um sentimento de relação natural e quando se quebra num momento surpreendente de revelação positiva, eleva-se sem que suspeitássemos desta tão boa e pura possibilidade. 




     este blog que deixo escrito em baixo e onde podem clicar para conhecer, foi uma boa surpresa. uma ótima e maravilhosa surpresa. de leitura e visualização. muito simples. no ponto. no meu ponto.





sábado, 19 de abril de 2014

muito a sul.


     este país que subo e desço perde-me de amores a cada pedaço a que se me expõe. uma e outra vez recobre-me o deslumbramento e deixa-me por dias pendurada nas memórias que dele trago. este país que é do mundo porque seria egoísmo dizê-lo só meu. este país abraçado pelo mar e empurrado para uma Europa velha e necessitada de renovação é a unha que lhe falta à beleza plena. este país que nunca me defrauda a vista está aqui para que eu o tome e me entregue à sua inesgotável sensualidade.