"não te detenhas nessa tristeza infantil, previsível e estudada que o mundo é maior do que julgas. tens apenas dezassete anos que é tão pouco, filho. revolta-te com o essencial não com o superficial. abre-te ao que sabes fazer, à tua veia magnífica de criatividade segura e transbordante. apaixona-te."
A do A, no Alentejo, perdida no tempo, construindo histórias nas pedras dos montes.
em abril, subia o pássaro de metal inteiro aos céus, em descolagem com destino prometido à ilha capital das nove ilhas, iniciei e acabei nesse vôo a leitura de "Alentejo Prometido", de Henrique Raposo, que acompanhei com a canção em modo repeat "burn it when i die" de Flip Grater. não sei, por isso, quantas vezes a ouvi mas a repetição faz-me colar a Marta, que ele diz ser o Alentejo ou a exceção ao Alentejo (agora digo-o eu) à canção. a peregrinação pelos pontos familiares da infância do Henrique à tristeza que esta canção recalca. um livro e a mesma canção.
iniciei hoje "As Curvas do Tempo" plasmadas nas Memórias de Oscar Niemeyer que espero acabar amanhã que esta noite não me ajuda. já a meio devoro com a mesma cadência e do princípio ao fim e depois do fim ao seu princípio o álbum "i am a bird now", dos Antony & the Johnsons. a mesma repetição. as mesmas palavras, aquele sotaque. as mesmas canções.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
lavro escrituras e testamentos.
por vezes penso que hei-de acrescentar, em tempo, a este verbo a terra que lavrarei nem que seja para ver crescer os coentros, a salsa, o basílico e todas as ervas com que tempero a minha vida.
cheguei a sussurrar-lhe que não fosse. depois ouvia-lhe a respiração. quase apostei que dormitava, embalado. fechei amiúde os olhos para apurar outros sentidos e recuei o tempo que quis. parei ali, a meio do mês de maio, em mil novecentos e noventa e quatro e a cassete que me ofereceu tocava agora martelada no piano à minha frente, numa escala maior, melhor e toda ela real.
dezanove anos frescos quando li Al Berto pela primeira vez. numa biblioteca, um livro escolhido ao acaso, retirado de uma prateleira a meia altura. um poema que não identifico. apenas o Medo e a capa permanecem na minha memória. mais tarde comprei a 1ª edição dos Diários da Assírio e Alvim e a meio deste mês, o Medo.
ler Al Berto é sentir a sua inquietação profunda e acompanhar-lhe a vida breve. conhecer-lhe os amigos e tentar adivinhar os amores que ocupavam a sua surpreendente alma, percorrer alguns lugares conhecidos, desfasados no tempo.
"Quando em pequeno ouvi contar que Deus se escondia por todo o lado, nas
águas do tanque de lavar roupa, no poço, na folhagem espessa do
loureiro, na terra húmida, nos canteiros de flores, no cimo das árvores.
Pareceu-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores, não sei
porquê, nunca consegui encontrar explicação. Deus está no cimo das
árvores e não nos outros lugares que me tinham dito. Achei exagerado que
Ele estivesse em todo o lado. Quando conseguia, subia às árvores,
ficava acocorado na folhagem, em silêncio, e esperava que Deus se me
revelasse.
Um dia surpreendi uma ave no ninho, e, repentinamente, suspeitei que
deus se escondesse dentro dum ovo. A ave tinha voado para longe,
assustada. Agarrei no ovo e trouxe-o para casa. Assim o conservei muito
tempo, dentro duma caixinha de cartão, em cima dum pedaço de algodão.
Vigiei-o noite após noite, até que o esqueci. Deixou de me surgir em sonhos, o ovo, e deus.
Alguns anos depois encontrei, numa gaveta de uma secretária velha, a
caixinha com o ovo dentro aparentemente intacto. Mal lhe toquei o ovo
desfez-se, tinha um cheiro a podre, execrável, tal como deus, a pouco e
pouco, foi apodrecendo no meu coração."
a que estado chegamos quando nos elevamos pensando saber qual o ponto em que devemos voltar? o céu é o limite e as convicções e os nossos princípios a determinação da sua extensão. é importante voar. mais importante é sabe-lo fazer batendo as asas, soltando as penas e erguendo a cabeça para tornar o voo mais leve e confortável. e livremente, a fim de que o retorno seja simples e sem arrependimentos.
ando embrulhada nas "463 Tisanas" da Ana Hatherly e o céu não me chega. completo o embrulho com a compra, no dia mundial da poesia, de "Amar é Pensar - Antologia de Poemas de amor de Fernando Pessoa" a ver se me descubro e redescubro-me afinal. e mais do que procurei.
"Amar é Pensar
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."