cheguei a sussurrar-lhe que não fosse. depois ouvia-lhe a respiração. quase apostei que dormitava, embalado. fechei amiúde os olhos para apurar outros sentidos e recuei o tempo que quis. parei ali, a meio do mês de maio, em mil novecentos e noventa e quatro e a cassete que me ofereceu tocava agora martelada no piano à minha frente, numa escala maior, melhor e toda ela real.
dezanove anos frescos quando li Al Berto pela primeira vez. numa biblioteca, um livro escolhido ao acaso, retirado de uma prateleira a meia altura. um poema que não identifico. apenas o Medo e a capa permanecem na minha memória. mais tarde comprei a 1ª edição dos Diários da Assírio e Alvim e a meio deste mês, o Medo.
ler Al Berto é sentir a sua inquietação profunda e acompanhar-lhe a vida breve. conhecer-lhe os amigos e tentar adivinhar os amores que ocupavam a sua surpreendente alma, percorrer alguns lugares conhecidos, desfasados no tempo.
"Quando em pequeno ouvi contar que Deus se escondia por todo o lado, nas
águas do tanque de lavar roupa, no poço, na folhagem espessa do
loureiro, na terra húmida, nos canteiros de flores, no cimo das árvores.
Pareceu-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores, não sei
porquê, nunca consegui encontrar explicação. Deus está no cimo das
árvores e não nos outros lugares que me tinham dito. Achei exagerado que
Ele estivesse em todo o lado. Quando conseguia, subia às árvores,
ficava acocorado na folhagem, em silêncio, e esperava que Deus se me
revelasse.
Um dia surpreendi uma ave no ninho, e, repentinamente, suspeitei que
deus se escondesse dentro dum ovo. A ave tinha voado para longe,
assustada. Agarrei no ovo e trouxe-o para casa. Assim o conservei muito
tempo, dentro duma caixinha de cartão, em cima dum pedaço de algodão.
Vigiei-o noite após noite, até que o esqueci. Deixou de me surgir em sonhos, o ovo, e deus.
Alguns anos depois encontrei, numa gaveta de uma secretária velha, a
caixinha com o ovo dentro aparentemente intacto. Mal lhe toquei o ovo
desfez-se, tinha um cheiro a podre, execrável, tal como deus, a pouco e
pouco, foi apodrecendo no meu coração."
a que estado chegamos quando nos elevamos pensando saber qual o ponto em que devemos voltar? o céu é o limite e as convicções e os nossos princípios a determinação da sua extensão. é importante voar. mais importante é sabe-lo fazer batendo as asas, soltando as penas e erguendo a cabeça para tornar o voo mais leve e confortável. e livremente, a fim de que o retorno seja simples e sem arrependimentos.
ando embrulhada nas "463 Tisanas" da Ana Hatherly e o céu não me chega. completo o embrulho com a compra, no dia mundial da poesia, de "Amar é Pensar - Antologia de Poemas de amor de Fernando Pessoa" a ver se me descubro e redescubro-me afinal. e mais do que procurei.
"Amar é Pensar
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."
O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro
terça-feira, 15 de setembro de 2015
há vícios que me ficam colados por tempos sem razão aparente que justifique o modo repeat em que me revejo. terá a ver com estados de alma, dizem-me. pouco me importa. tenho presente que passam a estar associados a pessoas e a momentos da minha vida. há um ano, no tempo que durou a morte do meu pai colei-me a outro som em que me viciei por meses e que não me deixava particularmente triste. muito pelo contrário. enterrei este som de finitude quando o procurei ao vivo numa noite fria de novembro, no s. Jorge, em Lisboa. em vão.
já este, em baixo, ainda bem vivido, acompanhou-me o presente verão fresco e sensaborão e reporta-me para o meu melhor lado lunar.
sábado, 29 de agosto de 2015
No I won't No I won't No I won't
I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way
No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
No I won't No I won't No I won't
I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way
No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You don't take me dancing anymore Oh you don't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor Oh it's been a long time Since I've been on the floor
No I won't No I won't No I won't I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since we've been on the floor You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor
Do something dark with me I can't live with these wounds Grab me by the feet and throw me in the lagoon
No I won't No I won't No I won't I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor Oh you don't take me dancing anymore
You don't take me dancing anymore You don't take me dancing anymore You don't take me dancing anymore
ainda agora cheguei das férias. das verdadeiras. daquelas pelas quais espero desde que me lembro de esperar pelo mesmo tempo, igual cadência de cheiros e sensações. as do sal do mar. as outras não serão menos do que estas de onde cheguei. não deixam de ser, essas outras, apenas apontamentos leves de fuga à rotina que me deixam quase sempre mais cansada do que que quando me entreguei a elas, embora sejam as minhas preferidas, por me renovarem genuinamente o interior tornado-me maior.
ainda agora cheguei das férias grandes que hoje, nesta idade adulta e de responsabilidade, duram intermináveis quinze dias. de descanso, de ócio puro, de desformatação cerebral, do modo suave que exprime o ideal dos preguiçosos - dolce fare niente.
ainda agora as terminei e já só penso naqueles outros cinco dias que me dispensei em junho para descobrir a rota marroquina de Marraquexe ao deserto, às dunas de Erg Chebbi, subindo e descendo o Alto Atlas. nessas outras férias onde me sinto bem porque plena, em contínua agitação interior e exterior, em ebulição ou no exato ponto de rebuçado.
ninguém duvida que parte do meu coração está em solo marroquino e que os meus sonhos inalcansáveis se reportam para aqueles ares, num outro tempo talvez. muitas vezes pergunto-me se haverá uma razão, desprezando suposições e hipóteses que se vão adiantando.
esta viagem foi muito bem preparada para nós, sete amigos que ficámos mais amigos ainda, pela Maria João Pavão Serra que, à medida, coseu os nossos cinco dias de forma irrepreensível.