domingo, 15 de maio de 2016

do piano

     cheguei a sussurrar-lhe que não fosse. depois ouvia-lhe a respiração. quase apostei que dormitava, embalado. fechei amiúde os olhos para apurar outros sentidos e recuei o tempo que quis. parei ali, a meio do mês de maio, em mil novecentos e noventa e quatro e a cassete que me ofereceu tocava agora martelada no piano à minha frente, numa escala maior, melhor e toda ela real.

Michael Nyman 
maio de 1994
maio de 2016



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Al Berto

     dezanove anos frescos quando li Al Berto pela primeira vez. numa biblioteca, um livro escolhido ao acaso, retirado de uma prateleira a meia altura. um poema que não identifico. apenas o  Medo e a capa permanecem na minha memória. mais tarde comprei a 1ª edição dos Diários da Assírio e Alvim e a meio deste mês, o Medo.

     ler Al Berto é sentir a sua inquietação profunda e acompanhar-lhe a vida breve. conhecer-lhe os amigos e tentar adivinhar os amores que ocupavam a sua surpreendente alma, percorrer alguns lugares conhecidos, desfasados no tempo.


      "Quando em pequeno ouvi contar que Deus se escondia por todo o lado, nas águas do tanque de lavar roupa, no poço, na folhagem espessa do loureiro, na terra húmida, nos canteiros de flores, no cimo das árvores. Pareceu-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores, não sei porquê, nunca consegui encontrar explicação. Deus está no cimo das árvores e não nos outros lugares que me tinham dito. Achei exagerado que Ele estivesse em todo o lado. Quando conseguia, subia às árvores, ficava acocorado na folhagem, em silêncio, e esperava que Deus se me revelasse.
Um dia surpreendi uma ave no ninho, e, repentinamente, suspeitei que deus se escondesse dentro dum ovo. A ave tinha voado para longe, assustada. Agarrei no ovo e trouxe-o para casa. Assim o conservei muito tempo, dentro duma caixinha de cartão, em cima dum pedaço de algodão.
Vigiei-o noite após noite, até que o esqueci. Deixou de me surgir em sonhos, o ovo, e deus.
Alguns anos depois encontrei, numa gaveta de uma secretária velha, a caixinha com o ovo dentro aparentemente intacto. Mal lhe toquei o ovo desfez-se, tinha um cheiro a podre, execrável, tal como deus, a pouco e pouco, foi apodrecendo no meu coração." 

in Diários. 

domingo, 17 de abril de 2016

poucas palavras.

a vida não dá para tudo.
enquanto houve vontade a vida dá para tudo. 
enquanto houver bom cinema a vida dá mesmo para tudo. 
aproveita o dia.

estou arrasada com este filme. 


com a sua banda sonora.







e a soberba interpretação de Juliette Binoche.

aqui a entrevista ao realizador do filme, Piero Messina.



quarta-feira, 23 de março de 2016

amar é pensar

     
     a que estado chegamos quando nos elevamos pensando saber qual o ponto em que devemos voltar? o céu é o limite e as convicções e os nossos princípios a determinação da sua extensão. é importante voar. mais importante é sabe-lo fazer batendo as asas, soltando as penas e erguendo a cabeça para tornar o voo mais leve e confortável. e livremente, a fim de que o retorno seja simples e sem arrependimentos.  

     ando embrulhada nas "463 Tisanas" da Ana Hatherly e o céu não me chega. completo o embrulho com a compra, no dia mundial da poesia, de "Amar é Pensar - Antologia de Poemas de amor de Fernando Pessoa" a ver se me descubro e redescubro-me afinal. e mais do que procurei.

"Amar é Pensar

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."


O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

terça-feira, 15 de setembro de 2015

     há vícios que me ficam colados por tempos sem razão aparente que justifique o modo repeat em que me revejo. terá a ver com estados de alma, dizem-me. pouco me importa. tenho presente que passam a estar associados a pessoas e a momentos da minha vida. há um ano, no tempo que durou a morte do meu pai colei-me a outro som em que me viciei por meses e que não me deixava particularmente triste. muito pelo contrário. enterrei este som de finitude quando o procurei ao vivo numa noite fria de novembro, no s. Jorge, em Lisboa. em vão. 

    já este, em baixo, ainda bem vivido, acompanhou-me o presente verão fresco e sensaborão e reporta-me para o meu melhor lado lunar.



sábado, 29 de agosto de 2015



No I won't
No I won't
No I won't
I won't let you move that way
Cause I don't
No I don't
I don't let you move that way
No I won't
No I won't
I won't stand here whilst you sway
No I don't
Anymore

No I won't
No I won't
No I won't
I won't let you move that way
Cause I don't
No I don't
I don't let you move that way
No I won't
No I won't
I won't stand here whilst you sway
No I don't
Anymore

You don't take me dancing anymore
Oh you don't take me dancing anymore
Oh it's been a long time
Since I've been on the floor
Oh it's been a long time
Since I've been on the floor

No I won't
No I won't
No I won't
I won't let you move that way
Cause I don't
No I don't
I don't let you move that way
No I won't
No I won't
I won't stand here whilst you sway
No I don't
Anymore

You won't take me dancing anymore
Oh it's been a long time
Since we've been on the floor
You won't take me dancing anymore
Oh it's been a long time
Since I've been on the floor
Do something dark with me
I can't live with these wounds
Grab me by the feet and throw me in the lagoon

No I won't
No I won't
No I won't
I won't let you move that way
Cause I don't
No I don't
I don't let you move that way
No I won't
No I won't
I won't stand here whilst you sway
No I don't
Anymore

You won't take me dancing anymore
Oh it's been a long time
Since I've been on the floor
You won't take me dancing anymore
Oh it's been a long time
Since I've been on the floor
Oh you don't take me dancing anymore
You don't take me dancing anymore
You don't take me dancing anymore
You don't take me dancing anymore

provações

    ainda agora cheguei das férias. das verdadeiras. daquelas pelas quais espero desde que me lembro de esperar pelo mesmo tempo, igual cadência de cheiros e sensações. as do sal do mar. as outras não serão menos do que estas de onde cheguei. não deixam de ser, essas outras, apenas apontamentos leves de fuga à rotina que me deixam quase sempre mais cansada do que que quando me entreguei a elas, embora sejam as minhas preferidas, por me renovarem genuinamente o interior tornado-me maior.

    ainda agora cheguei das férias grandes que hoje, nesta idade adulta e de responsabilidade, duram intermináveis quinze dias. de descanso, de ócio puro, de desformatação cerebral, do modo suave que exprime o ideal dos preguiçosos - dolce fare niente. 

     ainda agora as terminei e já só penso naqueles outros cinco dias que me dispensei em junho para descobrir a rota marroquina de Marraquexe ao deserto, às dunas de Erg Chebbi, subindo e descendo o Alto Atlas. nessas outras férias onde me sinto bem porque plena, em contínua agitação interior e exterior, em ebulição ou no exato ponto de rebuçado. 

     ninguém duvida que parte do meu coração está em solo marroquino e que os meus sonhos inalcansáveis se reportam para aqueles ares, num outro tempo talvez. muitas vezes pergunto-me se haverá uma razão, desprezando suposições e hipóteses que se vão adiantando.

   esta viagem foi muito bem preparada para nós, sete amigos que ficámos mais amigos ainda, pela Maria João Pavão Serra que, à medida, coseu os nossos cinco dias de forma irrepreensível.