a que estado chegamos quando nos elevamos pensando saber qual o ponto em que devemos voltar? o céu é o limite e as convicções e os nossos princípios a determinação da sua extensão. é importante voar. mais importante é sabe-lo fazer batendo as asas, soltando as penas e erguendo a cabeça para tornar o voo mais leve e confortável. e livremente, a fim de que o retorno seja simples e sem arrependimentos.
ando embrulhada nas "463 Tisanas" da Ana Hatherly e o céu não me chega. completo o embrulho com a compra, no dia mundial da poesia, de "Amar é Pensar - Antologia de Poemas de amor de Fernando Pessoa" a ver se me descubro e redescubro-me afinal. e mais do que procurei.
"Amar é Pensar
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."
O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro
terça-feira, 15 de setembro de 2015
há vícios que me ficam colados por tempos sem razão aparente que justifique o modo repeat em que me revejo. terá a ver com estados de alma, dizem-me. pouco me importa. tenho presente que passam a estar associados a pessoas e a momentos da minha vida. há um ano, no tempo que durou a morte do meu pai colei-me a outro som em que me viciei por meses e que não me deixava particularmente triste. muito pelo contrário. enterrei este som de finitude quando o procurei ao vivo numa noite fria de novembro, no s. Jorge, em Lisboa. em vão.
já este, em baixo, ainda bem vivido, acompanhou-me o presente verão fresco e sensaborão e reporta-me para o meu melhor lado lunar.
sábado, 29 de agosto de 2015
No I won't No I won't No I won't
I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way
No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
No I won't No I won't No I won't
I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way
No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You don't take me dancing anymore Oh you don't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor Oh it's been a long time Since I've been on the floor
No I won't No I won't No I won't I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since we've been on the floor You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor
Do something dark with me I can't live with these wounds Grab me by the feet and throw me in the lagoon
No I won't No I won't No I won't I won't let you move that way Cause I don't No I don't I don't let you move that way No I won't No I won't I won't stand here whilst you sway No I don't Anymore
You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor You won't take me dancing anymore Oh it's been a long time Since I've been on the floor Oh you don't take me dancing anymore
You don't take me dancing anymore You don't take me dancing anymore You don't take me dancing anymore
ainda agora cheguei das férias. das verdadeiras. daquelas pelas quais espero desde que me lembro de esperar pelo mesmo tempo, igual cadência de cheiros e sensações. as do sal do mar. as outras não serão menos do que estas de onde cheguei. não deixam de ser, essas outras, apenas apontamentos leves de fuga à rotina que me deixam quase sempre mais cansada do que que quando me entreguei a elas, embora sejam as minhas preferidas, por me renovarem genuinamente o interior tornado-me maior.
ainda agora cheguei das férias grandes que hoje, nesta idade adulta e de responsabilidade, duram intermináveis quinze dias. de descanso, de ócio puro, de desformatação cerebral, do modo suave que exprime o ideal dos preguiçosos - dolce fare niente.
ainda agora as terminei e já só penso naqueles outros cinco dias que me dispensei em junho para descobrir a rota marroquina de Marraquexe ao deserto, às dunas de Erg Chebbi, subindo e descendo o Alto Atlas. nessas outras férias onde me sinto bem porque plena, em contínua agitação interior e exterior, em ebulição ou no exato ponto de rebuçado.
ninguém duvida que parte do meu coração está em solo marroquino e que os meus sonhos inalcansáveis se reportam para aqueles ares, num outro tempo talvez. muitas vezes pergunto-me se haverá uma razão, desprezando suposições e hipóteses que se vão adiantando.
esta viagem foi muito bem preparada para nós, sete amigos que ficámos mais amigos ainda, pela Maria João Pavão Serra que, à medida, coseu os nossos cinco dias de forma irrepreensível.
a minha vida enche-se a cada movimento de inspiração. tanto que, não raras as vezes em épico ponto da confusão, oiço esse vulgar sinal de que estou cá, inspirando e expirando repetidas vezes, abandonando de seguida o pequeno mas forte momento de alguns segundos, esquecendo tranquilamente que o meu corpo trabalha sem comando à vista.
há cinco anos, no meu até agora e ainda centro nevrálgico do planeta, na louca praça jemma el fna, em Marraquexe, onde o sagrado e o profano nos confundem o amadurecimento, senti esse movimento no peito, ao saber que acabara de encontrar o rapaz mais bonito que até então havia visto. pela forma como estava sentado, como posicionava os braços sobre um papel que tentei, em vão, ler, apaixonei-me. e fotografei-o de longe, sem o perturbar, de mansinho, mas suficientemente perto para não lhe perder os contornos e a definição da imagem eternizada na minha memória.
desta vez, cinco anos depois, no mesmo lugar da minha praça, lembrei-me desse pequeno acontecimento e procurei-o, sem sucesso, partilhando a busca com quem me acompanhava.
ontem, o rapaz da louca praça de marraquexe atravessa-se no meu caminho, nas estradas recortadas e sinuosas de outras paragens, numa imagem arrancada por alguém que lhe encontrou a singularidade da beleza presente em toda a sua figura.