sábado, 29 de agosto de 2015

provações

    ainda agora cheguei das férias. das verdadeiras. daquelas pelas quais espero desde que me lembro de esperar pelo mesmo tempo, igual cadência de cheiros e sensações. as do sal do mar. as outras não serão menos do que estas de onde cheguei. não deixam de ser, essas outras, apenas apontamentos leves de fuga à rotina que me deixam quase sempre mais cansada do que que quando me entreguei a elas, embora sejam as minhas preferidas, por me renovarem genuinamente o interior tornado-me maior.

    ainda agora cheguei das férias grandes que hoje, nesta idade adulta e de responsabilidade, duram intermináveis quinze dias. de descanso, de ócio puro, de desformatação cerebral, do modo suave que exprime o ideal dos preguiçosos - dolce fare niente. 

     ainda agora as terminei e já só penso naqueles outros cinco dias que me dispensei em junho para descobrir a rota marroquina de Marraquexe ao deserto, às dunas de Erg Chebbi, subindo e descendo o Alto Atlas. nessas outras férias onde me sinto bem porque plena, em contínua agitação interior e exterior, em ebulição ou no exato ponto de rebuçado. 

     ninguém duvida que parte do meu coração está em solo marroquino e que os meus sonhos inalcansáveis se reportam para aqueles ares, num outro tempo talvez. muitas vezes pergunto-me se haverá uma razão, desprezando suposições e hipóteses que se vão adiantando.

   esta viagem foi muito bem preparada para nós, sete amigos que ficámos mais amigos ainda, pela Maria João Pavão Serra que, à medida, coseu os nossos cinco dias de forma irrepreensível. 

   

































  


  

  

terça-feira, 30 de junho de 2015

voltei.

     
Marraquexe, dois mil e dez.
     a minha vida enche-se a cada movimento de inspiração. tanto que, não raras as vezes em épico ponto da confusão, oiço esse vulgar sinal de que estou cá, inspirando e expirando repetidas vezes, abandonando de seguida o pequeno mas forte momento de alguns segundos, esquecendo tranquilamente que o meu corpo trabalha sem comando à vista.
     há cinco anos, no meu até agora e ainda centro nevrálgico do planeta, na louca praça jemma el fna, em Marraquexe, onde o sagrado e o profano nos confundem o amadurecimento, senti esse movimento no peito, ao saber que acabara de encontrar o rapaz mais bonito que até então havia visto. pela forma como estava sentado, como posicionava os braços sobre um papel que tentei, em vão, ler, apaixonei-me. e fotografei-o de longe, sem o perturbar, de mansinho, mas suficientemente perto  para não lhe perder os contornos e a definição da imagem eternizada na minha memória. 
  desta vez, cinco anos depois, no mesmo lugar da minha praça, lembrei-me desse pequeno acontecimento e procurei-o, sem sucesso, partilhando a busca com quem me acompanhava. 
    ontem, o rapaz da louca praça de marraquexe atravessa-se no meu caminho, nas estradas recortadas e sinuosas de outras paragens, numa imagem arrancada por alguém que lhe encontrou a singularidade da beleza presente em toda a sua  figura.

segunda-feira, 9 de março de 2015

para voltar sempre.

o melhor lugar para aconchegar o corpo de comida boa.




para voltar sempre após um assalto aos lugares da moda, onde se distraem os mais distraídos e onde se avistam os mais vaidosos. e onde se come, nunca melhor e onde não retorno pelo arrependimento da escolha fútil.


para voltar sempre. se me quero apanhar sozinha ou para voltar sempre se me cumpro realizada na reunião com os amigos.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

saír no frio do inverno.

     não desperdiço os meus dias de verão fora do meu país que me presenteia desde mil novecentos e setenta e seis com a melhor praia e o mais belo pôr-do-sol que morre, único, no fresco do Atlântico.

     por isso,

     jamais me enfio num avião para passar férias de apito num resort murado, a dez horas de distância.

     como tal,

     não compro férias de pacote por não apreciar produtos embalados e geneticamente modificados.

     assim,

     espreito para lá das fronteiras da minha língua nos meses duros do meu inverno, de preferência pelos passeios vazios dos lugares comuns onde todos insistem em ser fotografados. e fotografo fora do ângulo  de reconhecimento imediato.

   as minhas viagens têm que ser solitárias, ainda que esteja na maioria das vezes acompanhada. não gosto de multidões nem de fazer amizades com "colegas" de passeio. mas gosto de conhecer as pessoas dos lugares que visito, de me perder no seu ritmo único de palavras musicalmente diferentes das minhas. 

    dezembro que passou entrei em Itália por Milão, descendo de comboio até Florença. aí, subi e desci as colinas únicas da Toscana, cortei curvas e contracurvas no alto dos montes de onde avistei as pequenas aldeias perdidas nas vinhas de cores melancólicas e perfeitamente alinhadas ante as linhas de água que as alimentam. 

    e conheci, nesse cálculo único de kilómetros ganhos ao asfalto daquela região, Pisa que não é nunca mais e só uma cidade de uma torre inclinada. antes, a surpresa do mesmo Arno com que banhei os meus olhos todos os dias  mas a seu montante e a beleza sublime do espetáculo que é  a sua morte na marina que tem o nome da cidade.

   pude escutar o silêncio do encontro da água doce do Arno que se salga no Mediterrâneo. esse mar sem ondas, recolhido ao romantismo da costa itálica diametralmente oposta àquela onde vivi, por dois meses e meio, há treze anos.   

    isto é beleza pura, simples e fácil de apanhar. mas tem um segredo que mora fora dos meses agitados de verão.

marina de Pisa. dezembro de dois mil e catorze.

























terça-feira, 6 de janeiro de 2015

no trilho.


     se subires não tropeces que te custa mais o caminho. vai a direito, sempre em frente e não olhes para trás. assim que te cansares continua e se te faltar o ar, abranda. pelo trajeto, que te poderá parecer longo, vai contando as pedrinhas brancas que se evidenciam pela luz que emanam e atenta todos os sons dos diferentes bichos com que te cruzas sem os veres, porque se escondem à medida da tua caminhada. carrega toda a força que te caracteriza e explode somente quando achares que o tempo, esse tempo, chegou.