é preciso que se me vejam cravadas as rugas no meu rosto para que te aproximes e, finalmente, tragas a canção que levaste e, por isso, esqueci desde que te levantaste em voo paro o lado de lá do oceano. talvez seja mesmo preciso que me faça velha para que caias aos meus pés arrependido do profundo silêncio sempre que te pedi a devolução dos livros que tiraste da minha estante a pretexto de uns dias de férias na serra com os teus pais. razão tenho eu em desconfiar que será mesmo necessário sentires os nós dos dedos das minhas mãos secas e tortas, salpicadas de pintas castanhas que ainda não tenho para que tudo aconteça como programei.
domingo, 14 de setembro de 2014
sábado, 13 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
"o azul do céu
as cores desapareceram do céu. Os dias tornaram-se estreitos e a noite, que é sempre a mesma, mais escura ainda. O sol já não nasce nem se põe da mesma maneira. A lua perdeu a poesia mal foi manchada por passos humanos. As palavras ouvem-se baixinho. É preciso recomeçar tudo pelo princípio. Os sorrisos só existem em fotografias. Já não cheira a mar, nem se sente os dedos atravessados nos cabelos. Só existe aquela voz que grita sem parar aos meus ouvidos sem que nada se entenda. Há um corpo que não consegue encontrar um rumo. A minha alma ficou perdida numa gaveta e não a quero encontrar. Não saberia por onde começar. É como se tentasse explicar o que ninguém consegue entender. Quanto mais eu, outra e outra vez. As coisas esqueceram-se do seu nome. Os rostos abandonaram os corpos de mulheres e de homens. O que existiu, afinal, não existia. Aquele sentir que não disse que ia chegar, que não avisou, não deu tempo, não quis saber se era bem recebido. Simplesmente apareceu, ficou e agora não quer ir embora, tal visita que não percebe quando está a mais. Onde estás tu, para que me veja?"
Pedro Paixão, O céu na boca.
ontem demorei-me a soltar os lençóis de cima do meu corpo mole, votado a um vazio experimento pela primeira vez. depois de um duche mais frio que o costume, desci todos os degraus do prédio para entrar na garagem e recolher a minha bicicleta. pedalei toda uma manhã sob ameaça permanente de chuva, antecipando o cheiro da terra molhada que vim a sentir durante parte da tarde em que não estive sentada na cadeira do meio, na sala de cinema. e comprei mais um livro.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
saber voltar.
terão sido as melhores férias. soube disso muitos anos passados. quinze dias de uma história de amor que se viu adaptada ao livro publicado muito antes de ter nascido. terá sido então, a literatura a influenciar aquelas duas criaturas abraçadas a um amor recolhido em atitudes muito pouco prováveis de adolescência. os bilhetes trocados, os presentes perenes oferecidos e a carta com um só destinatário mas posta a quatro mãos no marco do correio vermelho que ainda existe no centro da aldeia alentejana provam com evidência a singularidade daquele amor. com pouco aconchego físico mas intensa troca intelectual. soube disso tudo muitos anos passados. recolher as memórias, dobrar os bilhetinhos, entregar tudo a um envelope enterrado na caixa de laço de linho branco sujo. e há cheiros que ainda percorrem esse verão e umas ínfimas sonoridades que entre a violência de um mar batente nas rochas, um escape desafiante à modernidade da altura ou ainda o grito livre das gaivotas que aprendeu a amar resolvem o quadro, fechando-o num lugar que soube, muitos anos passados, estar confinado num só corpo e num só pensamento.
terça-feira, 8 de julho de 2014
eu sei que ele nunca me vai ler. a não ser que me leiam para ele. e será outra coisa dado que só o sorver das minhas palavras pela sua leitura conseguiria permitir que soubesse que seria sempre isto que eu diria, por me ouvir através dos seus olhos inclinados sobre o meu texto.
francamente nem sei se alguma vez imaginou que o pudesse fazer, uma vez que quando nos conhecemos nem tudo foi denunciado, eu perdida nas gargalhadas que dava pela forma tosca e rústica dele se apresentar ao mundo, ele fascinado com a espontaneidade e loucura que, dizia-me muitas vezes, descobrira naquela que ele julgava afinal outra.
e fomos amigos alguns meses até que o tempo afastou a presença física e os telefonemas se foram esfumaçando. não sei quando deixámos de saber um do outro mas tenho presente o dia em que soube por uma amiga da irreversível cegueira que lhe consumiu a vontade de viver e o votou para um quarto de onde sai a muito custo.
por vezes esta forma escura de ele estar no mundo assola-me como uma culpa que sei não ser minha e chegam-me à memória outras culpas. outras histórias. outras vidas.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
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