Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
poema de Wisława Szymborska (tradução de Teresa Swiatkiewicz).
segunda-feira, 17 de março de 2014
comprei o novo disco do The Legendary Tiger Man.
e sabia que só podia ser muito bom.
e agora vou ouvi-lo dois milhões e trezentas mil vezes nas minhas viagens diárias de duas horas.
estranharam o meu silêncio e perguntaram se me desapaixonara.
em plena inspiração, faço o que não gosto de fazer. planeio. indico dias no calendário onde ilustro as minhas férias de verão. como se a vida não fosse muito melhor sem planos. prefiro que planeiem por mim. se me agradar vou. se não, vou também mas para outro lugar.
considero que o improviso me fica bem embora não dê muito jeito a quem convive com ele por se ter atrevido a conviver comigo.
acordei de noite, em NY, perdida no pequeno hotel que conhecia do filme. o quarto era o mesmo, as violetas lá estavam e o coxear do rapaz que me recebeu transportou-me para umas das minhas cenas cinematográficas preferidas de sempre.
acordei de noite, percebi-me demoradamente na minha cama, com um nó no lugar onde se diz que os homens guardam a maçã de Adão. sonhava bastante confusa.
esta foi a minha cansada noite de ontem. para hoje.
esta canção colou-se às minhas mãos enquanto tentei com elas e de braço esticado durante umas férias inteiras apanhar o vento que se soltava a partir da janela aberta do carro.
no meio da floresta a respirar pelos seus pulmões, a beber-lhe a seiva que corre descendentemente pelos troncos das suas árvores, a mirar-lhe os seus seres interiores que nela comungam com a vida. a folhagem no chão, maquinalmente caída teria sido arrumada assim? a luz que ela emana. a falta de luz que a noite encerra e os uivos de todos os animais que se consomem numa luta de continuação livre da espécie. a água da chuva e das nascentes que se ouve em som de permanência. e o Homem que ali soube poisar, reconhecendo um território que não é seu, preservando-o, animando-o e afagando-o como se um seu filho se tratasse.